Hooters: o filme de origem e o que a história da marca ensina sobre franchising
Por Paulo Mauro, fundador da Global Franchise Brasil
A imprensa de entretenimento noticiou o desenvolvimento de Hooters: The Movie, longa baseado na fundação da rede americana. Segundo o Deadline, o projeto é produzido de forma independente pelos sócios fundadores, com direção de Jon Rosenbaum e roteiro de Ed Droste, Phil Olson e Chuck Melcher. As filmagens estão previstas para a região de Tampa e Clearwater, na Flórida, onde a primeira unidade abriu em 1983.
Para quem só acompanha cinema, é mais um filme de origem. Para quem vive franchising, é um lembrete: por trás de marcas que viram fenômeno cultural quase sempre existe a mesma sequência. Uma ideia simples, uma proposta de experiência clara e, em algum momento, a decisão de transformar improviso em sistema.
Eu sempre fui fã da Hooters. E fui além da plateia: trouxe a marca para o Brasil.
Dois amigos, uma praia e um formato que se multiplica
A trama anunciada acompanha Ted e Lenny, amigos de infância de uma pequena cidade de Iowa que, quase por acidente, constroem um império nacional de restaurantes. A história começa com uma viagem a Clearwater Beach. Diane, vista em um comercial de spring break, se tornaria a primeira garçonete da rede.
Ed Droste, cofundador e produtor, resumiu o espírito do projeto: pessoas que no começo não sabiam exatamente o que estavam fazendo, se divertiram fazendo, e criaram algo com drama, coração e diversão. No franchising, essa frase aparece com frequência. O que separa o bar de sucesso da rede de sucesso não é só o carisma dos fundadores. É a capacidade de repetir a experiência, com padrão, suporte e governança, em dezenas ou centenas de pontos.
A Hooters não cresceu apenas porque tinha um cardápio. Cresceu porque construiu uma marca com personalidade forte, um formato de hospitalidade reconhecível e um modelo que o mercado de franquias soube escalar. Goste-se ou não do posicionamento, o case de negócios existe: clareza de proposta, consistência de marca e velocidade de expansão.
Por que eu trouxe a Hooters para o Brasil
Trazer uma marca internacional nunca é só entusiasmo de fã. Exige leitura de mercado, adaptação, relacionamento com a franqueadora, estrutura jurídica e operacional, e a honestidade de perguntar se o Brasil está pronto para aquela experiência no formato certo.
No caso da Hooters, o interesse vinha de duas frentes. De um lado, a curiosidade genuína por uma marca americana que transformou hospitalidade em espetáculo de marca. De outro, a convicção profissional de que o franchising brasileiro se beneficia quando aprende com redes que souberam exportar cultura de loja, não apenas produto.
O Brasil é um dos maiores mercados de franquias do mundo. Ainda assim, muitas marcas locais subestimam o poder de uma narrativa de origem bem contada e de um sistema bem desenhado. A Hooters, com todos os debates que a cercam, mostra o outro lado: uma proposta ousada, uma identidade inconfundível e a disciplina de franquia para crescer.
O filme e a narrativa que a franqueadora controla
Há um detalhe estratégico no anúncio: os fundadores estão por trás da produção. Em franchising, isso importa. Marca forte não deixa só o mercado, a imprensa ou a polêmica contar a própria história. Conta ela mesma, com os fundadores na sala.
Franqueadoras brasileiras ainda tropeçam nisso. Abrem unidades, publicam foto de inauguração e somem da narrativa. O investidor compra um manual. O cliente compra um produto. Ninguém compra um propósito. Quando a marca não explica por que existe, o mercado inventa uma explicação. Nem sempre a mais justa.
Um filme de origem é a versão hollywoodiana disso. No dia a dia, a versão brasileira pode ser mais simples e igualmente poderosa: história do fundador, critérios de expansão, padrão de experiência, cases de franqueados e posicionamento claro do que a rede é e do que ela não é.
O que franqueadores brasileiros podem extrair do case
Sem romantizar e sem moralizar, quatro lições práticas:
1. Proposta de valor precisa ser óbvia em 10 segundos.
O cliente entra e entende o que está comprando. No franchising, o franqueado também precisa entender, com a mesma clareza, o que está operando.
2. Experiência de marca é ativo, não decoração.
Cardápio se copia. Atmosfera, ritual de atendimento e identidade visual bem guardados viram barreira competitiva.
3. Improviso vira rede só quando vira método.
Fundadores talentosos abrem a primeira loja. Franqueadoras maduras abrem a centésima com o mesmo padrão de suporte.
4. Contar a origem é estratégia de valor.
Investidor compra confiança. Confiança nasce de história + números + sistema. Não de slogan solto.
Polêmica, marca e o olhar do franchising
A cobertura de entretenimento costuma rotular a Hooters como “polêmica”. Do ponto de vista de consultoria de franquias, o ponto útil é outro: marcas icônicas quase sempre geram discussão porque ocupam território cultural, não só prateleira.
Isso não isenta a rede de debates legítimos sobre posicionamento, época e público. Só muda o ângulo para quem formata e expande redes: toda marca forte carrega risco reputacional. O trabalho da franqueadora é gerir esse risco com governança, treinamento, comunicação e coerência, em vez de fingir que o mercado é neutro.
No Brasil, o mesmo raciocínio vale para qualquer rede que cresce rápido com identidade forte. Se a marca é o maior ativo, a narrativa e a reputação fazem parte do balanço, mesmo quando não aparecem no DRE.
O que fica
Hooters: The Movie ainda não tem data de estreia. Já tem, porém, utilidade para quem lidera franquias: lembrar que impérios de rede nascem de gente, de momento e de decisão de escalar. E que a história bem contada reforça o valor da marca no longo prazo.
Eu continuei fã. Continuei consultor. E continuei acreditando que o franchising brasileiro ganha quando olha cases internacionais com lucidez: copia o que é sistema, adapta o que é cultura e nunca confunde entusiasmo com método.
Se a sua marca tem história forte e ainda não tem estrutura de franquia à altura dela, o problema raramente é falta de carisma. É falta de formatação.
Fonte da notícia sobre o filme: matéria do Omelete com base em informações do Deadline. Leia a cobertura original.
Paulo Mauro é fundador da Global Franchise Brasil, consultoria especializada em formatação, expansão e internacionalização de franquias desde 1987, representante exclusiva da FCI no Brasil. Seu negócio tem potencial de franquia? Fale conosco no WhatsApp.