Por que o Brasil precisa de mais Franquias

Por que o Brasil precisa de mais franquias — artigo de opinião de Paulo Mauro | Global Franchise

Da pizza ao perfume, as franquias geram milionários, criam empregos e movimentam mais de R$ 300 bilhões por ano

Por Paulo Mauro | 10 de junho de 2026 | Dia Mundial do Franchising


Como ficar rico no Brasil de hoje? Abrir uma startup de inteligência artificial pode parecer tentador, mas a maioria fracassa. Ascender na carreira jurídica ou financeira foi por décadas uma rota confiável para a prosperidade — agora ameaçada pela automação. Talvez valha a pena olhar para um modelo mais discreto, mas extraordinariamente eficaz: a franquia. E, para entender seu potencial, basta observar a empresa que plausivelmente já criou mais milionários brasileiros do que qualquer outra — O Boticário.

Com quase 3.900 franquias espalhadas por todo o país, O Boticário é símbolo de algo maior: a força de um sistema que permite a empreendedores independentes operar negócios comprovados, com suporte de marcas consolidadas, pagando royalties e colhendo resultados. Beleza, perfume, cuidado pessoal — o modelo funciona de hotéis a academias de pilates, de lanchonetes a clínicas odontológicas.

Os números do setor

Os números são expressivos. Segundo dados da Associação Brasileira de Franchising (ABF), o setor encerrou 2025 com faturamento de R$ 301,7 bilhões — crescimento nominal de 10,5% sobre o ano anterior e o maior resultado da história. São 3.297 redes em operação, mais de 202 mil unidades ativas e 1,76 milhão de trabalhadores com emprego direto. Cada nova unidade franqueada gera, em média, nove postos de trabalho.

O segmento que mais cresce é exatamente aquele em que O Boticário atua: Saúde, Beleza e Bem-Estar faturou R$ 74,3 bilhões em 2025, avanço de 14,6% no ano. Não à toa, o Brasil desponta hoje como um dos maiores mercados de franchising do planeta — posição alcançada com um modelo econômico elegante e frequentemente subestimado.

Por que o franchising funciona?

Porque responde a leis profundas da economia: alinha incentivos e divide o trabalho de forma produtiva. O modelo se mostra mais eficaz quando uma empresa precisa de capilaridade geográfica, quando supervisionar funcionários à distância seria custoso e quando o conhecimento do mercado local é determinante. Nessas condições, faz sentido dividir responsabilidades: o franqueador cuida da marca e do produto; o franqueado, da adaptação ao contexto local. O resultado é uma aliança mutuamente vantajosa.

Um ambiente regulatório sólido

No Brasil, o franchising floresceu também graças a um ambiente regulatório relativamente sólido. A Lei do Franchising (Lei 8.955/1994, reformulada pela Lei 13.966/2019) estabelece obrigações claras de transparência: o franqueador deve divulgar ao candidato a franqueado informações detalhadas sobre custos iniciais, taxas recorrentes, resultados das unidades existentes e eventuais pendências jurídicas. Essa obrigação de disclosure cria um mercado mais informado — e, portanto, mais eficiente.

A Lei protege o Franqueador contra concorrência desleal pelos Franqueados atuais ou ex-Franqueados, e também contra ações trabalhistas movidas por funcionários de Franqueados que tentam envolver o Franqueador. Estes pontos e outros já com jurisprudência no Supremo tornam o nosso sistema de franquia um dos mais sólidos do planeta.

Além disto, a quase 40 anos, temos a ABF — Associação Brasileira de Franchising, uma das associações de franquia mais respeitadas a nível mundial, que construiu o alicerce robusto do sistema no Brasil e junto com a APEX — Associação de Promoção de Exportação, tem ajudado a expansão mundial das franquias brasileiras. E temos a maior feira de franquias do mundo, que vai acontecer de 24 a 27 de Junho próximo.

O efeito prático é visível: desde que as regras de divulgação se consolidaram, o setor nunca mais parou de crescer, e quase todo ano este crescimento é de dois dígitos. A confiança gerada pela transparência atraiu empreendedores que, de outra forma, jamais arriscariam o capital próprio num negócio desconhecido. A regulação inteligente não restringiu o franchising — ela o impulsionou.

O que o franchising representa de verdade

O franchising não tem o glamour das fintechs ou das big techs. Não produz manchetes sobre bilhões em valuation. Mas opera em setores que a inteligência artificial não vai substituir tão cedo — alimentação, saúde, beleza, educação, serviços locais. E, ao democratizar o empreendedorismo, permite que pessoas sem sobrenome famoso e sem capital de risco construam negócios sólidos e gerações de prosperidade.

No Dia Mundial do Franchising, vale a pena celebrar o que o setor representa: não apenas uma cifra de R$ 301 bilhões, mas milhares de famílias que dependem de salários gerados por esse modelo; centenas de milhares de empreendedores que encontraram no franchising uma porta de entrada para o mundo dos negócios; e marcas brasileiras que, partindo de uma vitrine, cresceram para cobrir o país — e o mundo.

O Brasil não precisa reinventar a roda. Precisa proteger e aprimorar o que já funciona.


Este artigo está baseado em artigo semelhante publicado na Revista "The Economist", em 28/05/2026, intitulado "Why the World Needs More Franchises", que adaptamos para o Brasil.

Paulo C. Mauro é CEO da Global Franchise e Diretor Internacional da Front Consulting International (FCI), maior rede mundial de consultores de Franchising. Autor de vários livros sobre o tema no Brasil e no exterior.


Franchising Brasileiro em Números — 2025 (ABF)

Indicador Resultado
Faturamento do setor R$ 301,7 bilhões (+10,5%)
Redes franqueadoras 3.297
Unidades em operação 202.444
Trabalhadores diretos 1,76 milhão (+2,5%)
Empregos por nova unidade 9 em média
Segmento líder (Saúde/Beleza) R$ 74,3 bi (+14,6%)
O Boticário (unidades) ~3.900 — 2ª maior rede do país

Fonte: ABF — Associação Brasileira de Franchising, Balanço Anual 2025.

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