Internacionalização: A Nova Fronteira das Franquias Latino-Americanas
Por Paulo Mauro, fundador da Global Franchise Brasil — a partir dos debates da ABF Franchising Expo e da FCI Convención 2026, São Paulo
Durante a ABF Franchising Expo 2026, a maior feira de franquias da América Latina, realizada no Expo Center Norte de São Paulo, uma das conferências mais aguardadas reuniu Alfonso Riera, presidente da Front Consulting International (FCI), Paulo Mauro, CEO da Global Franchise, e uma plateia de consultores de franquias vindos de dezenas de países. O tema não poderia ser mais oportuno: internacionalização.
A mensagem central foi clara e merece ser repetida em qualquer sala de diretoria que ainda pense em expansão internacional como um projeto de vaidade. Internacionalizar uma marca já não deve ser entendido apenas como estratégia para aumentar vendas. É, sobretudo, um mecanismo para diversificar riscos econômicos, regulatórios e políticos. Expandir para mercados distintos reduz a dependência de um único país e constrói organizações mais resilientes diante de cenários de incerteza — e poucos setores sabem tanto sobre incerteza quanto a América Latina.
O erro de achar que internacionalizar é abrir lojas
Um dos pontos mais importantes discutidos ao longo da semana é também um dos mais mal-entendidos pelo mercado: internacionalizar uma franquia não significa simplesmente abrir unidades em outros países. A verdadeira internacionalização consiste em desenvolver uma estrutura capaz de replicar a cultura, os processos operacionais, a experiência do cliente e os resultados em qualquer mercado do mundo.
Essa distinção parece sutil, mas é o que separa marcas que se sustentam fora de casa daquelas que fracassam logo na primeira tentativa. Os erros mais comuns se repetem com uma regularidade quase previsível:
- Tentar replicar exatamente o modelo do mercado de origem
- Subestimar diferenças culturais e hábitos de consumo locais
- Escolher mercados apenas por afinidade cultural em vez de critérios estratégicos
- Não ter estrutura preparada para dar suporte internacional
- Tratar a internacionalização como meta comercial de curto prazo, e não como decisão estratégica de longo prazo
A conclusão dos especialistas foi direta: internacionalizar exige adaptar o modelo de negócio sem perder a essência da marca. Não é sobre exportar uma cópia. É sobre exportar um sistema capaz de se reconstruir com fidelidade em outro contexto.
Marcas brasileiras testando o mundo
O setor de franquias brasileiras no exterior encerrou 2025 com 4.194 operações em 104 países, um crescimento de 37%. A América Latina lidera os destinos, seguida por Portugal e Estados Unidos.
A Convenção Internacional da FCI — Front Consulting International, com 25 países representados e 15 presentes em São Paulo, serviu de vitrine para uma nova geração de franquias brasileiras com ambição internacional real. Os exemplos ajudam a entender, na prática, como esse processo já está em curso:
Chilli Beans construiu uma das histórias mais inspiradoras do setor latino-americano ao transformar lançamentos frequentes, design próprio e comunicação de marca disruptiva em conexão emocional genuína com o consumidor. Hoje presente em 19 países, a rede tem planos agressivos de expansão, inclusive nos Estados Unidos.
Jah do Açaí mostrou como um produto genuinamente brasileiro pode virar experiência de consumo moderna, rápida e escalável. As operações na Alemanha e em breve no Chile estão abrindo novos horizontes para a expansão mundial da empresa.
Sobrancelhas Design demonstrou como especialização e padronização técnica sustentam expansão fora do país: hoje opera mais de 40 lojas na Argentina sob a marca Solo Cejas. Já a Emagrecentro adaptou até o próprio nome ao entrar no mercado paraguaio, onde opera como Best Shape — um exemplo direto de como preservar a essência do modelo sem insistir em manter uma marca que não faz sentido fora de casa.
A Rede de Vistorias, especializada em vistorias e perícias para os setores imobiliário, segurador e financeiro, mostrou como um modelo técnico e padronizado pode se tornar plataforma de expansão mundial. Já presente em Portugal e outros países, pretende se tornar a maior rede mundial do setor.
Maria Pitanga, rede cearense de açaí com forte expansão em Portugal, se prepara para entrar no mercado norte-americano ainda este ano. Corpo Bueno, franquia de estética brasileira, já tem unidade implantada com sucesso em Paris e acelera implantação em toda a América Latina. Você Editor, franquia inédita brasileira de elaboração e publicação de livros, prepara sua expansão na América Latina através da FCI. E a Dionelly, franquia de brinquedos infantis em centros comerciais, já tem franquia Master implantada com sucesso no Chile e operações em toda a Europa.
Uma janela que está aberta agora
O contexto internacional atual favorece essas movimentações. O crescimento das redes latino-americanas no exterior, o fortalecimento da região como destino de investimento e o interesse crescente por modelos de negócio já testados criam um cenário particularmente atrativo para empresas capazes de profissionalizar sua expansão internacional.
Nesse processo, conhecimento local, alianças estratégicas e redes internacionais de consultoria — como a própria FCI, presente em mais de 50 países e responsável por mais de 3 mil projetos de franquia implementados globalmente — cumprem um papel decisivo para reduzir riscos e acelerar o desenvolvimento de novas operações. Internacionalizar sozinho, sem apoio local no mercado de destino, continua sendo uma das formas mais caras de aprender lições que outros já aprenderam antes.
O que fica
A reflexão que resume esse momento do franchising latino-americano é simples de enunciar e difícil de executar: as marcas que atravessam fronteiras não são necessariamente as maiores, mas aquelas capazes de combinar propósito, capacidade de adaptação e inteligência estratégica para crescer em qualquer parte do mundo.
Para o franchising brasileiro e latino-americano, o momento é claro. Existe apetite de investidores, existe comprovação de modelo em casa, e existe uma rede internacional de conhecimento pronta para reduzir a curva de aprendizado. O que falta, para muitas marcas, é decidir que internacionalizar não é o passo seguinte depois de esgotar o mercado doméstico — é uma estratégia que deveria estar sendo desenhada desde antes.
Paulo Mauro é fundador da Global Franchise Brasil, representante exclusiva da FCI no Brasil, consultoria especializada em formatação, expansão e internacionalização de franquias desde 1987. Seu negócio está pronto para o próximo passo? Fale com a gente pelo WhatsApp.