A proximidade do fim do ano costuma estimular revisões estratégicas no setor de franquias, especialmente em um mercado que mantém crescimento mesmo em cenário econômico instável.
O franchising brasileiro registrou faturamento de R$ 135,8 bilhões até o segundo trimestre de 2025, segundo a Associação Brasileira de Franchising, e segue visto como uma opção de investimento para iniciantes.
No entanto, essa percepção está desatualizada, o mercado romantiza o peso das grandes marcas, ignorando que o desempenho real depende da capacidade de execução do operador.
Em vez de assumir que marcas fortes blindam o investidor, é preciso reconhecer que o brilho da fachada não impede uma gestão mal conduzida ou uma operação mal estruturada.
Ao longo de 2025, o setor evidenciou essa fragilidade.
Segundo o Anuário de Desempenho da ABF 2025, o número de unidades encerradas aumentou 9% em relação ao ano anterior, com maior concentração em redes de alimentação e serviços de conveniência, segmentos de margens apertadas e forte impacto de custos variáveis.
Entre os principais fatores estão o aumento dos custos operacionais, especialmente energia e insumos, e a dificuldade de contratação de mão de obra qualificada.
Esses custos corroem o caixa silenciosamente e criam um ambiente em que o franqueado opera no limite, muitas vezes sem informações suficientes para reagir.
É comum ver unidades que seguem manuais à risca, mas que ainda assim não conseguem atingir o ponto de equilíbrio, revelando um descompasso entre a teoria das redes e a prática do dia a dia.
O setor precisa reconhecer a centralidade do operador na performance da unidade.
A lógica do “invista em marca forte e tudo dará certo” já não se sustenta, e a divisão 70/30 (70% franqueado e 30% franqueador) só evidencia essa assimetria.
É o franqueado quem administra indicadores, observa o comportamento do cliente local, controla fluxo financeiro e ajusta a operação conforme o contexto econômico.
A responsabilidade do franqueador envolve suporte técnico, treinamento e sistemas eficientes.
Dados da ABF mostram, porém, que apenas 57% dos franqueados avaliam o suporte de suas redes como “muito bom” ou “excelente”, o que significa que quase metade opera com apoio insuficiente.
Essa lacuna é uma das principais causas de frustração entre investidores, que entram no setor acreditando que suporte é sinônimo de segurança e descobrem o contrário.
Apesar dos desafios, tendências claras apontam para caminhos de crescimento em 2026.
A interiorização avança com força, impulsionada por custos mais baixos, demanda reprimida e maior estabilidade operacional.
Esse movimento tem se mostrado uma alternativa consistente para operações sustentáveis, mas ele exige leitura cuidadosa do mercado local, interior não é sinônimo de sucesso automático, e muitos empreendedores ainda subestimam diferenças culturais e de comportamento de consumo.
Modelos mais enxutos, como microfranquias e operações autônomas, também continuam ampliando o acesso ao setor para empreendedores com menor disponibilidade de capital.
A digitalização também se tornou elemento central.
O aumento do uso de ferramentas de IA ao longo de 2025 indica mudanças no comportamento do consumidor.
De acordo com o relatório Digital Commerce da McKinsey, empresas que adotam automação e análise preditiva podem aumentar a eficiência operacional em até 40%, mas grande parte das redes ainda não incorporou esses recursos de forma estruturada.
Essa lentidão tecnológica cria uma divisão clara entre as redes preparadas para 2026 e as que continuam presas a modelos analógicos, especialmente no marketing e no atendimento.
Há divergências entre operadores e analistas sobre o peso da marca no sucesso de uma franquia.
Enquanto alguns defendem que o reconhecimento nacional reduz riscos, dados da ABF mostram que 31% das redes mais procuradas por investidores em 2024 não figuraram entre as de melhor desempenho operacional no ano seguinte, indicando que popularidade e sustentabilidade não são sinônimos.
Esse desalinhamento cria a falsa impressão de que o prestígio garante resultados, um equívoco que, repetido, leva investidores a decisões emocionais e não técnicas.
O cenário para 2026 aponta para um setor mais profissionalizado e exigente.
O sucesso dependerá menos da marca e mais da capacidade de gestão do franqueado, e que redes que não entregarem suporte real perderão competitividade.
A análise técnica, baseada em indicadores e sustentabilidade operacional, ganha importância diante da percepção crescente de que o nome da marca, isoladamente, não garante resultados.
*Por Artur Larangeira, COO da Global Franchise, atua há mais de 15 anos no mercado de franchising, contribuindo diretamente para a expansão e consolidação de marcas em diferentes segmentos.
Fonte: Assessoria Global Franchise